Microrganismos que digerem efluentes industriais
- December 02, 1991
- Público
-
É um reactor que permite realizar o tratamento biológico de efluentes industriais. Mas a verdadeira dificuldade deste processo, que pode não só reduzir a poluição como produzir gás, consiste em transferir para a indústria os resultados da investigação.
Proceder
ao tratamento biológico dos efluentes industriais através de
micro-organismos que actuam na ausência do oxigénio (chamados por isso
“anaeróbicos”) é uma técnica que Portugal, ao contrário do que
acontece noutros paises, ainda não utiliza. Para modificar esta situação,
o Departamento de Engenharia Biológica da Universidade do Minho (UM), está
a desenvolver um estudo sobre diversos aspectos deste sistema, aplicando
um novo tipo do reactor, mais económico, que poderá funcionar também
como fonte de energia na indústria.
Durante
a circulação do produto a tratar dentro do reactor, os micro-organismos
utilizados ficam suspensos no efluente, formando uma espécie de camada
protectora, que vai degradando os resíduos ao mesmo tempo que poduz gás.
Este tratamento de efluentes dirige-se, sobretudo, à actividade
industrial, podendo ser aplicado a ramos tão diversos como os dos
detergentes, lacticínios, têxteis, cerveja, e às indústrias químicas,
de são exemplo os corantes e os solventes.
Um dos
problemas que pode surgir na utilização deste equipamento é uma certa
ineficácia em termos da velocidade a que se processe o tratamento.
Ou seja: quando determinado efluente tem um forte indice de poluição,
frequentemente os micro-organismos anaeróbicos revelam-se incapazes de
actuar com sucesso. No entanto, para Luis de Melo, responsável pelo
projecto, trata-se de “situações extremas que facilmente se resolvem
com um tratamento aeróbico posterior”.
De
acordo com dados fornecidos pelo Departamento de Engenharia Biológica da
UM, este equipamento está a funcionar em 200 indústrias em todos o
mundo, embora em Portugal não exista.
Uma tecnologia económica
O
tratamento anaeróbico não só ocupa uma área menor do que a exigida
pelos sistemas aeróbicos, como se verifica também um volume muito menor
de lamas sólidas resultantes da actividade das bactérias. “este facto
é muito importante”, diz Luis de Melo, “dados os custos que o
transporte e o aterro acarretam, para além dos efeitos poluentes destes
resíduos nos solos”.
No
entanto, é em termos financeiros, que tudo poderá ser resolvido. Neste
plano, e face às experiências já realizadas, a equipa envolvida no
projecto garante que está ”perante uma tecnologia particularmente económica”,
que poduz, em simultâneo, “gás metano, que poderá ser utilizado como
fonte de energia na indústria”.
Outra
vantagem desta tecnologia é a possibilidade de tratamento de efluentes de
indústrias sazonais, devido à sua capacidade de “conservar a
actividade dos micro-organismos durante as épocas do ano em que o
processo de fabrico está praticamente parado”, algo que é impossível
com o sistema aeróbico, que exige uma contínua renovação.
Neste
momento, a equipa responsável que esta investigação está a desenvolver
também algumas experiências com componentes tóxicos, nomeadamente o
fenol, com o objectivo de encontrar “soluções rápidas e eficazes”,
para o processo de degradação. Porém, o mais importante, segundo Maria
das Flores Vieira – aluna finalista de Engenharia Biológica ligada ao
grupo de cinco investigadores que orienta este trabalho - ӎ
conduzir tudo isto para as indústrias, e não, o que seria de lamentar,
condenar o nosso trabalho a uma simples e improdutiva gaveta de laboratório”.
-
Felisbela Lopes