Digestão anaeróbia degrada gorduras dos efluentes

Uma tecnologia inovadora para a mineralização de gorduras em condições anaeróbias valeu a Madalena Alves a atribuição do Prémio Lettinga.

A degradação das gorduras presentes nos efluentes domésticos e industriais e em vários tipos de resíduos orgânicos pode deixar de ser uma dor de cabeça. Para isso basta aplicar a digestão anaeróbia no tratamento destes efluentes e resíduos, processo capaz de transformar as gorduras em biogás. Esta descoberta resulta de um trabalho de investigação desenvolvido por Madalena Alves, professora do Departamento de Engenharia Biológica da Universidade do Minho, que venceu a 2ª edição do Prémio Lettinga, o mais importante galardão mundial na área da biotecnologia ambiental.

O trabalho iniciado há cerca de 6 anos sobre a biodegradação anaeróbia de compostos lipídicos centrou-se em estudos básicos que conduziram e sustentaram o desenvolvimento de uma tecnologia inovadora para a mineralização de gorduras em condições anaeróbias. Esta tecnologia implica a biodegradação anaeróbia de gorduras, tendo em vista a sua mineralização a metano e dióxido de carbono e a consequente geração de biogás. Trata-se portanto de um processo de biometanização com vantagens económicas uma vez que o biogás pode ser convertido em energia eléctrica.

«Nestes processos de tratamento com produção de metano, as gorduras são altamente interessantes porque possuem um elevado potencial metanogénico, ou seja, teoricamente produzem mais metano do que os outros componentes dos efluentes e resíduos (açúcares ou proteínas), explica Madalena Alves. Contudo, na prática, este potencial é desperdiçado porque havia a ideia de que as gorduras eram altamente tóxicas para os microrganismos envolvidos. «Provámos que o efeito das gorduras sobre os microrganismos tem um carácter mais físico (limitações de transporte) do que metabólico e, o mais importante, é que é um efeito reversível», acentua.

O principal resultado prático desta investigação é que, do ponto de vista do tratamento de efluentes com elevados teores de lípidos, o processo contínuo não é possível e só um processo descontínuo baseado na tecnologia dos reactores fechados sequenciais permite a mineralização a metano deste tipo de compostos. Nos próximos dois anos, a tecnologia será demonstrada a nível industrial através do investimento do valor do prémio 25 mil euros no desenvolvimento, construção e demonstração de um reactor com estas características à escala piloto, aplicado a um efluente real rico em gordura.

Atribuído em Setembro, o prémio Lettinga é financiado por três empresas internacionais de biotecnologia ambiental (Paques Natural Solutions B.V, Royal Haskoning e Biothane Systems International). O objectivo deste prémio é estimular a inovação em biotecnologia ambiental, visando especificamente conceitos inovadores de tratamento sustentado de efluentes domésticos ou industriais, que integrem processos de digestão anaeróbia. Nesta 2" edição do prémio, atribuído através da Fundação Lettinga, foram apresentadas 30 candidaturas de todo o mundo.

Paula Malheiro