Prémio Lettinga

A eliminação dos resíduos é um problema que, nos últimos anos, tem servido de inspiração para muitos investigadores. Uma equipa do centro de Engenharia Biológica da Universidade do Minho estudou as gorduras dos efluentes de forma a desenvolver um projecto que permite transformá-las em biogás.

Não é fácil tratar as gorduras que surgem nos efluentes e mesmo esse processo pode originar produtos tóxicos. Até agora a solução mais comum tem sido tratá-las como resíduos sólidos e depositá-las em aterros. Uma solução que no entanto se tem mostrado pouco eficaz como explica Madalena Alves, investigadora do departamento de Engenharia Biológica da Universidade do Minho: “Essa gorduras removidas, por exemplo numa ETAR municipal, estamos a falar de grandes volumes de efluentes, se essas gorduras puderem ser valorizadas energeticamente, se pudermos, por exemplo introduzi-las num digestor anaeróbio para fazer a digestão das lamas da própria ETAR, podemos ter um aumento da eficiência da produção de biogás e isso consequentemente implica uma redução da factura eléctrica da ETAR.”

Foi com este objectivo que uma equipa da Universidade do Minho decidiu estudar os ácidos gordos de cadeia longa, gorduras hidrolisadas muito abundantes em efluentes industriais. Investigação que lhe valeu o Prémio Lettinga que se destina a trabalhos inovadores na área do tratamento anaeróbio de efluentes. “Foi bastante importante porque é um tema em que nós vínhamos já a trabalhar há alguns anos. Tem a ver com novos processos para degradar efluentes com elevado teor em gordura e tínhamos a ideia de que estávamos a fazer um trabalho importante e relevante e inovador e com o prémio tivemos a confirmação de que isso era verdade,” conta Madalena Alves.

Os ácidos gordos de cadeia longa têm sido considerados muito prejudiciais para os efluentes e com efeitos tóxicos agudos que não permitem o trabalho de depuração das bactérias. Uma verdade que agora está a ser posta em causa. “Ou seja, o que estava descrito eram efeitos tóxicos agudos, efeitos bactericidas e nós provamos que afinal os ácidos gordos de cadeia longa conseguem ser degradados eficientemente desde que se conheçam os mecanismos. Portanto conseguimos eliminar a inibição que é causada por estes ácidos, tratando-se apenas de um inibição física, por efeitos de limitação de transportes e não uma inibição metabólica como toda a gente pensava que acontecia,” explica a investigadora.

Segundo os investigadores o conceito dos reactores sequenciais é a tecnologia mais apropriada para promover a mineralização das gorduras. Mas existem dois passos importantes para que este fenómeno aconteça. “Há um primeiro passo que há uma hidrólise rápida das gorduras ácidos gordos de cadeia longa e eles acumulam os micro-organismos nos flocos bacterianos que são os agentes depuradores e depois de acumularem, temos que , se for um processo em contínuo, a fase seguinte de mineralização do que está acumulado não ocorre e o que nós descobrimos é que temos de parar a alimentação do reactor, ou seja, temos que operar de uma forma sequencial e dessa forma, parando a alimentação do reactor, fechando o reactor, a entrada e a saída, os compostos que estavam acumulados nos micro-organismos por mecanismos de absorção, de retenção dos flocos, conseguirem ser mineralizados eficientemente a metano.”

A partir do momento em que se conseguiu degradar e mineralizar estas gorduras em metano, dentro do reactor, foi possível produzir biogás.

Na segunda fase do projecto, os investigadores vão utilizar o prémio para construir o protótipo e fazer a demonstração.

Filipa Costa Prenda


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