Madalena Alves - E da Gordura Fez Luz

Madalena Alves não gosta nada da "fama" que granjeou ao vencer o Prémio Lettinga 2004, uma distinção atribuída pela fundação holandesa com o mesmo nome e que premeia projectos "inovadores" relacionados com a biotecnologia ambiental. "Uma entrevista? Para falar sobre o quê?", questiona a investigadora do Departamento de Engenharia Biológica da Universidade do Minho.

Recém chegada do Chile onde participou num seminário internacional sobre bio-energia, apresentando uma comunicação sobre a produção de biogás a partir de resíduos industriais, Madalena Alves não esconde que prefere a universidade "a essas coisas dos jornais". Mesmo assim, com uma simplicidade quase desconcertante, predispõe-se a explicar "em linguagem não-científica" o projecto que lhe valeu um prémio no valor de 25 mil euros e é financiado por três empresas internacionais de biotecnologia ambiental. Uma verba que se destina a ser investida no projecto e que Madalena vai usar na construção de um protótipo de um reactor capaz de concretizar, na prática, a teoria da investigadora minhota.

Nascida em Viana do Castelo e estudante no Porto, a investigadora escolheu a cidade de Braga para viver com o marido e os dois filhos de sete e quatro anos. Foi já na Universidade do Minho- onde agora é docente-que, em 1998, completou o doutoramento em Engenharia Biológica com uma tese sobre "digestão anaeróbia". "As questões ambientais foram sempre a minha área de trabalho", recorda a investigadora. E finaliza: "Os efluentes [resíduos líquidos industriais ou domésticos] e a forma como podem ser tratados ou reutilizados são uma paixão mais tardia". Mas nem por isso menos intensa.

Apaixonada pelas questões ambientais, esta engenheira química, formada na Universidade do Porto, tem pena que, em Portugal, "não haja vontade política para resolver os problemas do ambiente". "Tem que haver incentivos para quem defende o ambiente e para quem, por exemplo, usa energias renováveis", diz Madalena Alves, salientando que em países como a Alemanha e a Dinamarca, para além de existirem "programas nacionais específicos para o uso de biogás", há incentivos fiscais e financeiros para quem produz energia eléctrica a partir do gás proveniente da combustão dos resíduos. Também na investigação ambiental, a docente da disciplina de Tratamento de Água e Efluentes Líquidos, considera que há muito a fazer. "Só agora é que as empresas começaram, elas próprias, a financiar investigação ambiental e a procurar as melhores soluções ambientais para os seus resíduos", refere ainda Madalena Alves, crente de que, actualmente, os empresários têm preocupações com o meio ambiente que, em outros países da Europa, já se fazem sentir há "vários anos".

E qual foi, então, o trabalho que trouxe para Portugal (de entre 30 candidaturas originárias de todo o mundo) um dos mais prestigiados prémios de investigação na área do ambiente, conhecido por privilegiar a "inovação" e a "aplicabilidade" dos projectos concorrentes?

Em "linguagem não-científica", o trabalho que, embora coordenado por Madalena Alves, contou com a colaboração das investigadoras Alcina Pereira, Diana Sousa e Ana Cavaleiro, desenvolveu uma tecnologia que permite mineralizar as gorduras existentes nos efluentes, transformando-os em metano, um gás que pode ser utilizado na produção de energia eléctrica.

O estudo, iniciado há seis anos, desenvolve uma tecnologia inovadora realizada em sistema sequencial fechado onde se realiza o processo de mineralização de lípidos em condições anaeróbias (ausência total de oxigénio). "O que nós provámos é que em determinadas condições conseguimos, muito eficientemente, transformar grandes quantidades de gorduras em biogás. Isto permite valorizar energeticamente essas gorduras", resume a investigadora. O estudo revela que a digestão de lípidos não pode ser realizada em sistema contínuo, mas sim em sistema sequencial fechado, e explica o processo: "A amostra a tratar entra no reactor, aguarda-se que as gorduras se agarrem aos microrganismos, período em que acontece a mineralização destas a metano (transformação em biogás) e o efluente fica pronto a ser descarregado", explica a docente do departamento de Engenharia Biológica da UM. Quando se tratam correntes ricas em lípidos em reactores de fluxo contínuo, verifica-se que os microrganismos anaeróbios têm uma enorme capacidade de acumular estes compostos, sem, no entanto, os transformarem em metano.

O biogás é uma fonte energética renovável, uma mistura de metano e dióxido de carbono, com uma composição semelhante à do gás natural, que pode ser injectado na rede de consumo. Se a estrutura onde está a ser produzido for de dimensões consideráveis, a cientista garante que pode ser-lhe anexado um motor gerador de electricidade e esta ser aproveitada "permitindo resolver grande parte da factura eléctrica da empresa, além de alimentar o próprio digestor que realiza o tratamento".

Explicações à parte, o trabalho de Madalena Alves veio mostrar que, ao contrário do que tem vindo a ser considerado na literatura científica, a dificuldade de degradação dos efluentes com elevado teor em gorduras por processos anaeróbios não era devida à toxicidade destas relativamente aos microrganismos, mas antes ao método pelo qual o processo era realizado. "Durante muito tempo pensou-se que as gorduras eram muito más para os processos de tratamento, daí que a fracção de lípidos fosse removida logo no início do processo", elucida.

O reconhecimento internacional do valor científico do trabalho de Madalena chegou agora, aos 40 anos de idade, e veio mostrar que estava no caminho certo. "Nós tínhamos o sentimento de que este trabalho era importante e que estávamos a descobrir coisas essenciais em relação aos tratamentos anaeróbios. Mas é difícil chegar e mudar alguns conceitos instalados. Por mais congressos em que participássemos e disséssemos que as gorduras, afinal, podiam ser degradadas, as pessoas continuavam a não acreditar. Tínhamos a percepção de que não éramos ouvidos no meio", frisa a docente da Universidade do Minho que tem publicados 25 artigos em revistas internacionais e mais 30 artigos em actas de congressos. "E fazer trabalho científico sem se ser reconhecido ou referido pelos pares é quase como não fazer nada", refere. Contudo, há já alguns anos que o trabalho de Madalena Alves tem despertado curiosidade entre os investigadores, tendo sido mesmo convidada para fazer parte do grupo de trabalho da Internacional Water Association (IWA), um organismo composto por apenas doze membros, que visa a harmonização de métodos para medição da actividade, toxicidade e biodegradabilidade em condições anaeróbias.

Por Emília Monteiro 
Domingo, 21 de Novembro de 2004


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