Portuguesa Premiada por Desenvolver Aparelho Que Transforma Grandes Quantidades de Gorduras em Gás

Madalena Alves, da Universidade do Minho, ganhou um prémio holandês por ter desenvolvido uma tecnologia inovadora que transforma grandes quantidades de gorduras presentes em efluentes líquidos em biogás reutilizável.

O trabalho português - que obteve o primeiro lugar do Prémio Lettinga, atribuído pela Fundação Lettinga para promover a investigação dos tratamentos ambientais em condições de ausência de oxigénio - foi escolhido entre 30 projectos, de vários países. Madalena Alves, de 40 anos, já recebeu os 25 mil euros do prémio, no Congresso de Digestão Anaeróbia em Montreal, no Canadá.

No trabalho desenvolveu-se uma tecnologia que cristaliza os lípidos - ou seja, solidifica as gorduras, que ficam com a aparência de cristais - em condições anaeróbias, ou ausência total de oxigénio. "Em determinadas condições conseguimos, muito eficientemente, transformar grandes quantidades de gorduras em biogás. Isto permite valorizar energeticamente essas gorduras", conta Madalena Alves.

A investigadora explica o processo: depois de os efluentes entrarem num reactor, aguarda-se que as gorduras se agarrem a microrganismos anaeróbios. É nessa altura que se dá a cristalização das gorduras e se forma metano - ou seja, as gorduras transformaram-se em biogás. "O efluente fica pronto a ser descarregado." Os resíduos solidificados podem usar-se como fertilizante.

Quando se tratam efluentes ricos em lípidos em reactores de outros tipos, verifica-se que os microrganismos anaeróbios têm grande capacidade de acumular estes compostos, sem, no entanto, os degradarem em metano.

O biogás é uma fonte energética, que pode ser injectado na rede de consumo. Pode ser usado para produzir electricidade, por exemplo, permitindo resolver parte da factura eléctrica de uma empresa, além de alimentar o próprio aparelho que faz o tratamento.

O prémio vai ser gasto na construção de um protótipo a instalar numa empresa. A investigadora preferia que fosse uma empresa de lacticínios, pois tem já estudos na área, mas pode ser qualquer uma, desde que os efluentes tenham gordura. "Penso que dentro de seis meses estaremos a construir o protótipo."

Madalena Alves iniciou este trabalho em 1998, com um estudo sobre a biodegradação anaeróbia de compostos lipídicos. A sua investigação centra-se nos processos anaeróbios de tratamento de efluentes e resíduos para optimizar a produção de metano e/ou hidrogénio.

A ela associaram-se três investigadoras, Alcina Pereira, Diana Sousa e Ana Cavaleiro, Juntas provaram que, ao invés do que diz a literatura científica, a dificuldade de degradação dos efluentes com elevado teor em gorduras por processos anaeróbios não se deve à toxicidade dos lípidos para os microrganismos, mas antes ao método usado no processo.

"Durante muito tempo pensou-se que as gorduras eram muito más para os processos de tratamento, daí que a fracção de lípidos fosse removida logo no início do processo."

O Prémio Lettinga, o maior neste domínio a nível mundial, segundo a Fundação de Ciência e a Tecnologia portuguesa, pretende estimular a inovação em biotecnologia na área do tratamento de efluentes domésticos e industriais. A inovação e aplicabilidade são os critérios que fundamentaram a escolha do júri.

O reconhecimento internacional do trabalho mostrou que Madalena Alves estava no caminho certo. Já foi mesmo contactada por empresas internacionais interessadas, e por algumas portuguesas, interessadas no aparelho.

"Tínhamos o sentimento de que estávamos a descobrir coisas essenciais em relação aos tratamentos anaeróbios. Mas é difícil chegar e mudar alguns conceitos instalados", conta. "Por mais congressos em que participássemos e disséssemos que as gorduras, afinal, podiam ser degradadas, as pessoas continuavam a não acreditar. Não éramos ouvidos. Fazer trabalho científico sem se ser reconhecido pelos pares é quase como não fazer nada."

Por CÉLIA MARQUES AZEVEDO 
Sexta-feira, 12 de Novembro de 2004


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