Gorduras e lixos podem ter solução rentável

Projecto da Universidade do Minho ganha prémio mundial Equipa de investigadores vai agora criar um reactor para teste

O mais importante prémio mundial na área da biotecnologia ambiental (Lettinga) foi atribuído este ano, a um projecto desenvolvido pela professora Manuela Alves, docente do departamento de Engenharia Biológica da Universidade do Minho (UM). O projecto, inovador, sustenta-se no tratamento de efluentes domésticos ou industriais, que integram processos de "digestão anaeróbia", que mais não é, segundo Madalena Alves, do que "o tratamento que os efluentes ou resíduos precisam de levar antes de ser lançados para os cursos naturais". O dinheiro do prémio vai agora ser usado na concepção de um reactor para experimentar o projecto.

Há dois tipos de efluentes: os domésticos, que são tratados nas ETAR, e os outros que são gerados em indústrias, "todos diferentes entre eles e que por isso, merecem tratamentos diferentes". Os processos anaeróbios (que não usam oxigénio) permitem a criação de biogás, com o qual pode fazer-se energia eléctrica ou produzir gás natural, tornando-se por isso "uma mais-valia em termos energéticos".

O mais curioso de tudo isto é que "em Portugal praticamente não há indústrias que usem os processos anaeróbios no tratamento de resíduos. A única que eu conheço é Unicer, em Leça do Balio", diz Madalena Alves, sublinhando que o prémio "serve também para despertar as pessoas para este fenómeno muito mais ecológico e rentável do que os processos actualmente utilizados".

A docente da UM vai mais longe e considera que "tudo o que é matéria orgânica deveria ser tratada com processos anaeróbios, evidentemente integrados com outros processos". Mas o prémio atribuído à UM deveu-se a uma ideia pioneira que está a ser desenvolvida: "Nós descobrimos que este tipo de processo é o mais adequado para degradar as gorduras que são uma parte importante dos efluentes. Pensava-se que não havia nada que as pudesse tratar, mas as gorduras podem ser transformadas em biogás, desde que tenham as tecnologias adequadas".

Um trabalho de seis/sete anos, que agora foi reconhecido a nível mundial é "uma pequena revolução no tratamento de resíduos orgânicos".

O próximo passo é aplicação prática dos 25 mil euros do prémio na concepção, desenho e construção de um reactor, que permita fazer o tratamento das gorduras tal qual está pensado. Depois, o grupo de trabalho, liderado por Madalena Alves, vai escolher uma empresa portuguesa para testar o reactor.

Perfil

Prémio premeia vida dedicada à química

Madalena Alves

Investigadora da Universidade do Minho

Madalena Alves licenciou-se, em 1987, em Engenharia Química pela Universidade do Porto. Iniciou a sua actividade docente no Departamento de Engenharia Biológica, em 1988, tendo concluído o mestrado em 1992, no Instituto Superior Técnico e o doutoramento em 1998 na Universidade do Minho. É actualmente professora auxiliar, sendo responsável, entre outras, pela disciplina de Tratamento de Água e Efluentes Líquidos II, do 5º ano da licenciatura em Engenharia Biológica. A sua actividade de investigação centra-se nos processos anaeróbios de tratamento de efluentes e resíduos com vista à optimização da produção de metano e/ou hidrogénio. Para tal, estuda os consórcios microbianos envolvidos nos processos, recorrendo a técnicas que incluem ensaios de actividade, toxicidade e biodegradabilidade, métodos moleculares e análise de imagem. O prémio Lettinga, iniciado em 2001, é financiado por três empresas internacionais de biotecnologia ambiental.


Related Content