Trabalho com fungos põe UM na vanguarda internacional

A Micoteca da Universidade do Minho é um exemplo a nível internacional da forma como as colecções de culturas de fungos devem ser organizadas e geridas.

Este centro, que tem por objectivo ser depositário e fornecedor de estirpes de fungos filamentosos, assim como constituir um nicho de investigação, de formação e de informação na área da microbiologia, vai ficar numa situação ainda mais invejável quando mudar para as novas instalações, localizadas na Escola de Ciências da Saúde.

O novo espaço foi pensado de raiz para albergar este material, pelo que cumprirá todos os requisitos internacionais existentes na matéria.

O percurso da Micoteca está intimamente ligado à carreira do investigador Nelson Lima, que começou a sua vida profissional com trabalhos sobre os fungos filamentosos, como bolores e mofos. O docente foi constituindo uma colecção privada de fungos, que transportava para os locais aonde se deslocava.

Em 1996, ao abrigo de um contrato-programa com a Reitoria, começou a organização do «amontoado de fungos» seguindo os padrões de qualidade internacionais. O Centro de Engenharia Biológica esteve envolvido neste trabalho e, desde essa altura, tem sido a «incubadora» do projecto.

A Micoteca construiu uma base de dados, que está disponível no seu site (www.micoteca.deb.uminho.pt) e conseguiu a acreditação pelos organismos internacionais que regulam esta área. Isto permite-lhe disponibilizar o conhecimento a investigadores dos quatro cantos do planeta.

«Qualquer investigador de todo o mundo pode aceder aos materiais que temos, evitando ter de recorrer à natureza para os encontrar. O material que temos está isolado, estudado e acessível», afirma Nelson Lima.

O mesmo responsável destaca a importância da disponibilização dos recursos biológicos para a investigação, para o ensino e para a indústria: «fica muito mais barato manter os recursos vivos em colecções do que ir buscá-los à natureza sempre que é necessário. Além disso, nada me garante que o que eu vou buscar à natureza seja exactamente igual àquilo que já está estudado e catalogado», explica.

Para além da colecção e da base de dados, o trabalho da Micoteca inclui o desenvolvimento de projectos de investigação, a promoção de cursos de formação, a publicação de livros e a prestação de serviços à comunidade.

Entre as iniciativas que tem levado a cabo com repercussões além fronteiras destaca-se, por exemplo, a organização do workshop pan-europeu dedicado ao estudo e controlo das contaminações fúngicas em águas engarrafadas, que decorre entre hoje e quarta-feira, no Instituto de Estudos da Criança.

O percurso iniciado na década passada foi feito com tanto rigor que a Micoteca acabou por se tornar num «paradigma» para outras colecções, quer em Portugal, quer no estrangeiro. Isso fez com que Nelson Lima tenha ficado responsável pelo contacto entre as colecções a nível europeu e seja o representante de Portugal no grupo de trabalho para os centros de recursos biológicos da OCDE.

Apesar deste lugar de destaque, o trabalho continua e este centro da academia minhota poderá contar dentro de pouco tempo com uma doutorada em gestão de colecções.

Ao serviço da indústria da região

A Micoteca da UM está a trabalhar com a indústria, tendo a maioria dos pedidos origem em empresas do sector alimentar da região. No entanto, também há investigações em curso que se prendem, por exemplo, com os efeitos de degradação em obras de arte ou em acervos bibliográficos. «Temos uma relação de confiança com a indústria. Em certos casos, a confidencialidade dos projectos é total», diz Nelson Lima.

O investigador sublinha que esta é uma área com um enorme potencial de investigação, da qual todas as pessoas se podem aperceber sem qualquer esforço no dia-a-dia. «Todos vemos no nosso quotidiano que o material abandonado – desde uns sapatos húmidos até alimentos que deixamos no frigorífico – acabam por ficar com bolor», lembra.

O docente sublinha que se descobrem anualmente entre duas a três mil novas espécies, o que significa que existe pela frente um trabalho ciclópico para estudar as suas implicações nas mais diversas áreas. «Há produtos fabulosos, como a penicilina. Mas também há toxinas que provocam cancros e outras doenças», refere, para explicar as implicações que o trabalho dos investigadores pode ter na vida concreta de cada um.


[13/09/2004 - 10:10] [Luísa Teresa Ribeiro]


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