Curtumes serão indústria verde

Carteiras, sapatos, marroquinaria, vestuário – tudo em couro – continua na moda. As empresas de curtumes não têm mãos a medir para satisfazer a procura de couro e redobram esforços para produzir mais e melhor.

Por isso, um conjunto de empresas que representam dois terços da indústria de curtumes portuguesa, aliaram-se a vários centros de investigação, incluindo o Centro de Engenharia Biológica da Universidade do Minho, para descobrir novas técnicas de produção.

O resultado foi uma série de novos procedimentos que evitam utilizar os tradicionais produtos químicos tão poluentes. Manuel Mota, coordenador do projecto Ecocurtumes, afirmou que, caso a indústria adopte as soluções biotecnológicas propostas, «a indústria deixa de ser poluente».

Vejamos o crómio por exemplo. É um metal com uma elevada carga poluente que, até agora, era indispensável para o curtume das peles. Os investigadores propuseram à indústria duas alternativas para este processo: uma empresa que os banhos de crómio em que as peles são submersar possam ser reutilizados, circulando em circuito fechado – graças a uma técnica que utiliza membranas de ultrafiltração que retêm os resíduos orgânicos e deixam passar o crómio, solúvel em água. Em resultado, o crómio é reduzido para valores muito abaixo do permitido por lei. A segunda solução proposta, da qual Manuel Mota preferiu não dar pormenores uma vez que ainda está em cima da mesa patentear o processo, permite fazer o curtume das peles sem libertar para o meio ambiente crómio algum.

Mas as inovações propostas pelo grupo de investigadores vão mais longe. Uma das primeiras partes do processo de transformação de uma pele em couro é a eliminação dos pêlos que ainda venham agarrados. O processo usado até agora envolvia sulfureto de sódio, um químico com um cheiro tão intenso que é impossível passar por uma fábrica de curtumes sem dar por ela. Em alternativa, foi sugerido à indústria que passe a usar enzimas – o mau cheiro desaparece e a carga poluente dos efluentes é eliminada.

Para além disto, a equipa de investigadores concebeu uma série de processos que automatizam a produção. Como exemplo, o fulão (um grande tambor rotativo onde se desenrola uma boa parte da produção) era operado manualmente, com as perdas de tempo e eficiência inerentes. Agora, é possível automatizar o funcionamento do fulão, nas várias vertentes de velocidade giratória, cargas de produtos, temperatura, etc. Ainda, foram propostas soluções para a reciclagem e reutilização dos resíduos sólidos, como por exemplo o aproveitamento das aparas de couro para fazer aglomerados para palmilhas e saltos de sapatos, e técnicas de controlo de qualidade, que permitem ir aferir o grau de penetração do crómio e dos corantes nas peles.

- Alexandra Figueira