Lactose poluente produz alcoól

Investigadores portugueses criaram um microrganismo que "come" lactose retirando a carga poluente do soro
Transformar um grave problema ambiental – o soro resultante da produção do queijo – num produto rentável e “verde”. Foi este o objectivo de um estudo realizado pelo Departamento de Engenharia Biológica (DEB) da Universidade do Minho em conjunto com a empresa Quinta dos Ingleses e a Lacticínios Halos. Oito anos de investigação desembocaram na criação de novo microorganismo, através de manipulação genética, capaz de comer lactose e de agregar em flocos.

Em Portugal, produz-se por dia um milhão de toneladas de soro lácteo resultante do fabrico de queijo, ao ritmo de dez litros por cada quilo de queijo. Trata-se de um soro com uma elevada concentração orgânica, que o torna um dos mais poluentes efluentes industriais produzidos em Portugal. Composto basicamente por água, lactose (5%) e duas proteínas (1%).

O desafio de o tornar num produto menos poluente e economicamente rentável foi aceite pelos investigadores da Universidade do Minho. “Quisemos seguir uma filosofia ainda pouco explorada em Portugal: tornar um sub-produto que agora é desperdiçado numa matéria-prima para outros produtos de valor acrescentado”, aperfeiçoando uma técnica já existente, afirmou José Teixeira, director do DEB e líder do projecto.

Neste momento, o aproveitamento económico do soro lácteo é feito em duas etapas. Primeiro, é submetido a uma ultrafiltração que retira as duas proteínas dominantes, a a-lactalbumina e a b-lactoglobulina, com um grau de concentração proteica que varia entre os 35% e os 80%. Fica-se assim com um líquido permeado, composto basicamente por água e lactose.

“Mesmo sem a presença das proteínas”, afirmou José Teixeira, “esta solução continua a ser poluente”, pelo que se impõe um segundo tratamento, capaz de lhe retirar a lactose. Este segundo passo consiste na transformação da lactose em etanol (vulgo álcool alimentar), através da sua fermentação por um micro-organismo dentro de um tanque. Ou seja, entra a solução permeada e sai álcool e água, fundamentalmente.

Foi aqui que a equipa de investigadores introduziu uma tecnologia “made in Braga”. Até agora, e só de Portugal, tem sido usado um micro-organismo que obriga a trabalhar num ritmo descontinuado, em que solução e o micro-organismo são introduzidos no tanque e após a fermentação todos os produtos daí derivados são retirados.

A alternativa proposta pelos investigadores é um micro-organismo capaz de se agregar em flocos que pode ser retido dentro de um tanque para que o processo se desenrole em contínuo, aumentando a produtividade. Através da manipulação genética “pegamos num micro-organismo com capacidade floculante e fizemos com que ganhasse a capacidade para metabolizar a lactose e a transformar em álcool”, explicou José Teixeira.

Tanto as proteínas resultantes da primeira fase do processo quanto o álcool podem ser usados como matéria-prima para outros produtos de maior valor acrescentado, enquanto que a solução remanescente pode ser dirigida para uma Estação de Tratamento de Águas Residuais sem a desequilibrar.

A par da investigação genética propriamente dita, a equipa de cientistas sondou o meio empresarial português e chegou à conclusão que existe procura tanto para o concentrado proteico (para bebidas para atletas, alimentação infantil ou dietética ou panificação, por. ex.), como para o álcool (como aditivo para bebidas).

José Teixeira está satisfeito com os resultados obtidos, pelo que quer tentar retirar do soro outras proteínas existentes em quantidades inferiores ou encontrar produtos de maior valor acrescentado a partir da lactose.

 - Alexandra Figueira