Relações investigação-indústria

Hoje os investigadores estão extremamente interessados em que os resultados daquilo que fazem possa vir algum benefício do país.
Um dos sectores industriais em que mais desenvolvimento e maiores investimentos se têm verificado a nível internacional nos últimos , é o sector da Biotecnologia. Sendo certamente uma área de risco, tem-se constatado em simultâneo com alguns fracassos, sucessos que têm conduzido a grandes negócios.

Em Portugal a situação é algo expectante e embora existindo grupos de cientistas de qualidade em várias universidades e outras instituições do país, não se tem assistido ao desenvolvimento e à aplicação da sua investigação no sector produtivo.

Para se compreender a situação actual no país é interessante traçar-se uma pequena história – necessáriamente incompleta – do que tem sido a investigação nas biotecnologias modernas no nosso país.

Há uns 25 anos, existiam no país vários grupos de investigação muito virados para as ciências biológicas fundamentais e o primeiro salto em frente consistiu na criação do Instituto Gulbenkian de Ciência, onde, cerca de 1968, um pequeno número de investigadores seleccionados viu-se rodeado de todas as condições com que sempre tinham sonhado para poder realizar ciência de ponta. Isso fez com que a microbiologia, a bioquímica e a biologia celular sofressem aí um salto qualitativo que projectou aquele Instituto para um lugar privilegeado em termos de investigação científica portuguesa.

Vários outros grupos, entretanto, já nos anos 70 estavam em erupção, e eram resultado de uma política inteligente que, a partir de meados dos anos 60 facultou e encentivou a realização de doutoramentos no estrangeiro. Essa foi uma medida essencial para o desenvolvimento da ciência  em Portugal em que participaram financeiramente o INIC, o comité português da Invotan e a Fundação Gulbenkian.

Os grupos atrás referidos conduziram ao desenvolvimento de várias disciplinas, entre as quais a biofísica, a engenharia bioquímica e a biotecnologia vegetal.

Olhando agora à distância de uns quinze anos é curioso notar que esses grupos souberam colaborar entre si, e com os entretanto já instalados no Instituto Gulbenkian da Ciência e, lutando pelo seu aumento de massa crítica, foram de facto os motores da Biotecnologia moderna em Portugal.

Claro que a investigação num país numa área tão vasta como é a da biotecnologia não pode estar dependente de um pequeno número de núcleos, e aí residirá a principal debilidade da investigação em biotecnologia em Portugal. Seriam necessários muitos grupos bem dimensionados para conduzir a um progresso mais rápido e a um mais fácil acesso à colaboração com grupos internacionais.

Nalguns casos, os nossos grupos estão numa situação de estrangulamento dada a quantidade de projectos de investigação que detêm e das solicitações de colaboração internacionais que lhe chegam e às quais não conseguem atender.

Hoje, a investigação em biotecnologia continua a ser praticada na região de Lisboa no I.G.C. em biologia celular, genética, bioquímica e microbiologia, mas são parceiros de grande potencialidade o recém-criado  Centro de Tecnologia Química e Biológica, que veio agrupar investigadores de outros grupos das áreas de biofísica, biologia molecular e biotecnologia vegetal que se encontravam sufocados, em instalações inadequadas; o IST, onde os objectivos iniciais da engenharia bioquímica foram contemplados com os necessários conhecimentos de microbiologia e da biologia molecular; a Faculdade de Ciências de Lisboa onde o grupo de biotecnologia vegetal tem vindo a estabelecer colaboração com outros grupos tendo em vista a cobertura de domínios complementares, às suas áreas de interesse.

Muitos outros grupos trabalham na região de Lisboa em biotecnologia, mostrando especial tendência de crescimento os da UNL e do LNETI. Fora de Lisboa são de referir como os mais activos, grupos do Porto, no Centro de Citologia Experimental e na emergente Escola Superior de Biotecnologia e em Braga e Coimbra nas respectivas Universidades.
           
Europeização
Em 1986 a investigação portuguesa começou a participar no esforço europeu e isso foi mais um passo que não deixou de marcar certos grupos, não só pelos financiamentos entrados mas também porque os obrigou a trabalhar em associação com grupos científicos de outros países da Europa e os obrigou a rever os objectivos científicos que até ai os norteavam.

Mais tarde é o programa Ciência que vem trazer um novo alento, agora através do financiamento para infraestruturas de que muitos grupos andavam carecidos.

São então promovidas associações entre vários grupos nacionais com vista a um fortalecimento mútuo. Surge assim o Instituto de Biotecnologia e Química Fina, que para além da Secção de Biotecnologia do IST agrupa a Biologia Vegetal da FCL, o Instituto Gulbenkian de Ciência, o CTQB e um jovem promissor grupo em surgimento na Universidade do Minho.

Por outro lado, surgem também um Instituto do Porto associado ao Centro de Citologia Experimental, um Centro associado à Escola Superior de Biotecnologia e um pólo  em Lisboa na U.N.L. que se encontra associado a grupos do LNETI. Ainda nos Açores é criado um centro multidisciplinar que trabalhará também em Biotecnologia.

O avanço da biotecnologia não depende apenas dos investigadores. É frustante que um país tenha uma massa crítica de investigadores – o que poderá ser discutível se é o caso português – e que não consiga concretizar a aplicação do que é desenvolvido.

Esta é a situação em Portugal. Não há aparentemente no domínio da biotecnologia empresários capazes ou dispostos a apostar na posta em prática dos conhecimentos desenvolvidos no país. Verifica-se mais: é que não é só o problema de não haver empresários prontos a apostar na área. Mais do que isso, e mais preocupante do que isso, a meu ver, é verificar-se que não há espírito empreendedor, o que é uma crítica também aos próprios investigadores. Há anos dizia-se que o problema residia na ausência de sociedades de capital de risco. Hoje elas existem, mas nem os investigadores nem os investidores em geral, que as poderiam utilizar, parecem querer experimentar os esquemas que são oferecidos. É totalmente correcto afirmar-se que as apostas na biotecnologia representam algum risco. Quantas sociedades se criaram nos EUA e no resto do mundo e falharam? A resposta é muitas e, das que sobraram, a maioria ainda foi absorvida pelos grande grupos capitalistas. No entanto, e apesar disso, tem-se ganho muito dinheiro com a biotecnologia e, cada iniciativa que é tomada representa um passo em frente, é uma aposta no futuro e um incentivo à investigação. O falhanço acaba por ser apenas parcial pois dele resultam sempre benefícios para a Sociedade e para os futuros empreendedores, que às vezes são, na realidade, os mesmos que falharam anteriormente.

A inexistência de empreendedores conduz ao total marasmo que em Portugal só tem sido ultrapassado devido ao facto de os investigadores não deixarem de acreditar, e no fundo serem possuidores da noção talvez errada, de que se pode fazer investigação em biotecnologia sem se ter por objectivo último a aplicação.

Claro que se um investidor for ter com um investigador e lhe disser “quero investir em biotecnologia, diga-me em quê”, talvez ele não seja capaz de dar uma solução instantânea. Para permitir uma resposta mais positiva a essa solicitação, tem estado a ser formada uma carteira de oportuniodades, consultando os investigadores sobre quais dos seus resultados eles pensam estar mais próximos da aplicação industrial. Essa carteira foi, numa fase muito preliminar, publicada pelo ICP tendo em vista uma exposição realizada em Lisboa.  Essas fichas dão ideias em termos de áreas que poderiam ser abordadas e têm vindo a ser trabalhadas agora em colaboração da recém-criada Agência de Inovação, tendo em vista o apoio aos potenciais investidores

É pena que não parta também do empreendedor uma abordagem aos investigadores, dando-lhes ideias sobre os produtos que lhes poderiam interessar. Os poucos contactos que se vão verificando, normalmente falham porque a certa altura o investigador, admitindo pela positiva que se revela interessado, diz que fazer essa investigação implica algum investimento, e esse é, em geral, o fim da conversa, dado que em geral, o empreendedor considera que a investigação nas universidades ou nos laboratórios do Estado é um serviço público que não precisa ser pago.

É evidente que os empreendores terão razões perfeitamente aceitáveis para proceder desta forma. Mas a questão que se põe é, se assim iremos a algum lado.

Nos últimos anos a visão do país que está a impor é uma visão de serviços e as poucas indústrias que se vão estabelecendo não são mais do que locais de produção, utilizando tecnologias já estabelecidas e compradas no exterior. Tal tipo de indústria nunca poderá ter o mesmo impacte económico que outra que se baseia em tecnologias e produtos próprios.

Creio que é necessário caminhar neste sentido e, um primeiro passo a dar seria incentivar os contactos, mesmo que numa primeira fase improdutivos, entre investigadores e indústrias. E posso garantir uma coisa: hoje os investigadores estão extremamente interessados em que os resultados daquilo que fazem possa vir algum benefício para a economia do país.

A imagem do investigador fechado no seu laboratório, cheio de teias de aranha e alheamento ao exterior encontra-se totalmente ultrapassada.

É portanto essencial, para o desenvolvimento que se pretende imprimir à biotecnologia em Portugal, fomentar o contacto directo entre investidores, deixando que as ideias de cada parte sejam arejadas com toda a abertura e avaliando os conselhos e recomendações que cada um tenha a apresentar.

Assim, gradualmente, será criado um clima de confiança que permitirá que as concretizações comecem a aparecer, o que terá como consequência indirecta um redobrar do interesse dos investigadores e um maior número de oportunidades de investimento no futuro.

- Júlio Maggiolly Novais
Prof. Catedrático do Instituto Superior Técnico e
Presidente da Comissão Coordenadora de Investigação em Biotecnologia