"Quem não sabe é como quem não vê"

A propósito do trabalho intitulado “Quem não sabe é como quem não vê” (Expresso “A Revista” - ”Qualidade devida”, 15/2/92), ocorreu-me prestar algumas informações sobre o ensino das questões de Ambiente no nosso país.
Existe desde 1986 na Universidade do Minho uma licenciatura em Engenharia Biológica, cujo objectivo é formar técnicos de nível superior para as indústrias baseadas em processos biológicos e químicos-físicos, de que são exemplos as aindústrias alimentar, farmacêutica (antibióticos, esteróides), química da cekulose, etc.. Significa isto que estes técnicos irão inevitavelmente, trabalhar em empresas que contribuem para a “produção” de cargas poluentes muito expressivas.

O último ano do curso contém um conjunto de disciplinas de maior especialização, que constituem um “Ramo”. Inicialmente, existia apenas um ramo centrado na indústria alimentar, com particular atenção dada à Enologia, pela importância do vinho verde na Região, mas cientes dos problemas ambientais que o sector agro-alimentar origina, introduzimos, dersde a primeira hora, uma disciplina de sensibilização, designada “Poluição”, na qual se estudam os métodos de combate à poluição – e julgo que fomos inovadores.

Estimulados pela reação dos estudantes e pelos projectos de investigação que entretanto iniciámos no domínio de tratamento de efluentes da indústria dos lacticínios, decidimos criar um novo ramo, subordinado ao tema “Controlo da poluição”, cujos primeiros licenciados sairão no final do presente ano lectivo (Julho/92). Existe, pois, mais um curso de engenharia –não mencionado no artigo d”A Revista” do Expresso – que fornece uma preparação especializada em diversos aspectos da protecção do Ambiente.

Pode dizer-se que a Engenharia Biológica (ramo Controlo da Poluição) de “infiltrará” no coração dos poluidores através destes (“verdes”?) engenheiros que irão reforçar, no interior das empresas, a sensibilidade aos aspectos ambientais. Mais importante ainda: os engenheiros biológicos são “engenhareiros de processos”, isto é, conhecem e controlam, por dentro, os processos de fabrico de diversas indústrias, pelo que estão particularmente aptos a conhecer a poluição reduzindo-a “na fonte”, pela introdução de modificações nos processos ou seleccionando os que, à partida, apresentam em maior grau “tecnologias limpas”.

Friso, porém, que a necessidade de cursos tradicionais de Engenharia do Ambiente não é posta em causa por este novo tipo de formação, uma vez que os engenheiros do Ambiente dominarão melhor um leque mais vasto de questões, como a ecologia, o impacte ambiental, etc.. O mesmo não se poderá dizer dos problemas mais directamente ligados à produção (ao processo de fabrico) e às tecnologias dse tratamento dos efluentes industriais.

Luís Melo
Director do Curso de Engenharia Biológica da Universidade do Minho, Braga