Microrganismos que digerem efluentes industriais

É um reactor que permite realizar o tratamento biológico de efluentes industriais. Mas a verdadeira dificuldade deste processo, que pode não só reduzir a poluição como produzir gás, consiste em transferir para a indústria os resultados da investigação.

Proceder ao tratamento biológico dos efluentes industriais  através de micro-organismos que actuam na ausência do oxigénio (chamados por isso “anaeróbicos”) é uma técnica que Portugal, ao contrário do que acontece noutros paises, ainda não utiliza. Para modificar esta situação, o Departamento de Engenharia Biológica da Universidade do Minho (UM), está a desenvolver um estudo sobre diversos aspectos deste sistema, aplicando um novo  tipo do reactor, mais económico, que poderá funcionar também como fonte de energia na indústria.

Durante a circulação do produto a tratar dentro do reactor, os micro-organismos utilizados ficam suspensos no efluente, formando uma espécie de camada protectora, que vai degradando os resíduos ao mesmo tempo que poduz gás. Este tratamento de efluentes dirige-se, sobretudo, à actividade industrial, podendo ser aplicado a ramos tão diversos como os dos detergentes, lacticínios, têxteis, cerveja, e às indústrias químicas, de são exemplo os corantes e os solventes. Um dos problemas que pode surgir na utilização deste equipamento é uma certa ineficácia em termos da velocidade a que se processe o tratamento.  Ou seja: quando determinado efluente tem um forte indice de poluição, frequentemente os micro-organismos anaeróbicos revelam-se incapazes de actuar com sucesso. No entanto, para Luis de Melo, responsável pelo projecto, trata-se de “situações extremas que facilmente se resolvem com um tratamento aeróbico posterior”. De acordo com dados fornecidos pelo Departamento de Engenharia Biológica da UM, este equipamento está a funcionar em 200 indústrias em todos o mundo, embora em Portugal não exista.

Uma tecnologia económica

O tratamento anaeróbico não só ocupa uma área menor do que a exigida pelos sistemas aeróbicos, como se verifica também um volume muito menor de lamas sólidas resultantes da actividade das bactérias. “este facto é muito importante”, diz Luis de Melo, “dados os custos que o transporte e o aterro acarretam, para além dos efeitos poluentes destes resíduos nos solos”.
No entanto, é em termos financeiros, que tudo poderá ser resolvido. Neste plano, e face às experiências já realizadas, a equipa envolvida no projecto garante que está ”perante uma tecnologia particularmente económica”, que poduz, em simultâneo, “gás metano, que poderá ser utilizado como fonte de energia na indústria”. Outra vantagem desta tecnologia é a possibilidade de tratamento de efluentes de indústrias sazonais, devido à sua capacidade de “conservar a actividade dos micro-organismos durante as épocas do ano em que o processo de fabrico está praticamente parado”, algo que é impossível com o sistema aeróbico, que exige uma contínua renovação. Neste momento, a equipa responsável que esta investigação está a desenvolver também algumas experiências com componentes tóxicos, nomeadamente o fenol, com o objectivo de encontrar “soluções rápidas e eficazes”, para o processo de degradação. Porém, o mais importante, segundo Maria das Flores Vieira – aluna finalista de Engenharia Biológica ligada ao grupo de cinco investigadores que orienta este trabalho  - ”é conduzir tudo isto para as indústrias, e não, o que seria de lamentar, condenar o nosso trabalho a uma simples e improdutiva gaveta de laboratório”.

 - Felisbela Lopes